Por DANIEL LIMA

ECOnomista, Colunista do BLOG da SNW

A crescente participação de fontes renováveis variáveis, como solar e eólica, intensifica a volatilidade dos preços nos mercados elétricos. Essa volatilidade decorre da intermitência natural dessas fontes, que produzem energia em momentos específicos do dia e variam conforme condições climáticas. Em mercados altamente expostos a essas oscilações, a estabilidade de preços se torna um desafio operacional e econômico.

Papel dos BESS

Sistemas de armazenamento por baterias (BESS) surgem como solução estratégica para absorver excedentes de geração e suprir demanda em momentos de escassez. Ao fazer isso, reduzem picos e vales de preço, estabilizam o sistema e aumentam a eficiência operacional.

Conclusão do estudo

Com base no caso da Dinamarca (DK1), demonstra-se que a expansão do armazenamento comprime spreads e reduz oportunidades de arbitragem. Esse fenômeno, denominado autofagia energética, descreve como o armazenamento consome a própria volatilidade que o remunera, ao mesmo tempo em que fortalece o sistema elétrico.

Desafios dos mercados renováveis

Mercados com alta penetração de renováveis enfrentam oscilações diárias acentuadas: excesso de geração ao meio‑dia e queda abrupta ao pôr do sol. Esses movimentos criam vales e picos de preço que incentivam arbitragem, mas também pressionam a operação do sistema.

BESS´s são introduzidos para mitigar essa volatilidade, absorvendo energia barata nos vales e liberando energia nos picos. Essa atuação altera estruturalmente o comportamento do mercado, reduzindo a amplitude das oscilações.

O caso dinamarquês ilustra como o aumento da capacidade de armazenamento modifica o perfil diário de preços e comprime spreads ao longo do tempo, oferecendo um modelo aplicável ao Brasil.

Metodologia e base de dados

Perfis de preço simulados

Utilizam-se perfis day‑ahead simulados para cenários com baixa e alta penetração de armazenamento, permitindo observar como BESSs alteram a forma da curva diária.

As projeções de spreads de 4 horas entre 2025 e 2060 capturam a evolução da arbitragem ao longo do tempo, revelando tendências estruturais.

Fonte: Internet
Fonte: Internet

Estimativas da capacidade ativa de BESS no mercado day‑ahead mostram como o volume de armazenamento cresce e influencia o comportamento dos preços.

A abordagem busca identificar relações causais entre expansão de armazenamento, volatilidade e spreads, oferecendo insights aplicáveis a outros sistemas elétricos, como o brasileiro.

Efeitos das baterias no perfil diário de preços

Absorção de excedentes

Com baixa penetração de armazenamento, o excesso de geração solar ao meio‑dia derruba preços, podendo atingir valores próximos de zero ou negativos. Com mais BESSs, as baterias compram energia barata, reduzem o excedente e elevam o preço do vale.

Suprimento nos picos

No início da noite, quando a demanda aumenta e a geração renovável diminui, os preços sobem. BESSs vendem energia nesses momentos, atendem parte da demanda e reduzem o pico.

Achatamento da curva

O resultado é uma curva de preços mais plana e previsível, com menor amplitude entre extremos. Isso reduz riscos, melhora previsibilidade e diminui a necessidade de acionamento de usinas caras. É a transformação da “curva do pato na curva de jacaré”.

Compressão de spreads no longo prazo (2025–2060)

Evolução dos spreads

O spread de 4 horas é o principal motor da arbitragem energética. No caso dinamarquês, observa-se que, conforme a capacidade ativa de BESS aumenta, o spread diminui e se estabiliza.

Ao suavizar picos e vales, as baterias reduzem a volatilidade que sustentava sua rentabilidade. Esse fenômeno é conhecido como self‑cannibalization, pois o armazenamento consome sua própria fonte de lucro marginal.

Com spreads menores, o retorno marginal de novas baterias diminui, exigindo diversificação de receitas por meio de serviços ancilares, mercados de capacidade, contratos bilaterais e otimização multi‑mercado.

Impactos sistêmicos

Estabilidade de preços – Mercados mais planos reduzem riscos para consumidores, comercializadores e operadores, aumentando previsibilidade e segurança.

Integração de renováveis – BESS´s reduzem curtailment, aumentam o aproveitamento da geração solar e eólica e aliviam restrições operativas.

Eficiência econômica – Menos volatilidade reduz custos de balanço, facilita o planejamento energético e melhora a eficiência do sistema.

Desafios regulatórios – Com spreads comprimidos, é necessário criar mecanismos de remuneração que valorizem serviços de flexibilidade, estabilidade de frequência e resposta rápida.

Impacto no preço da energia para os consumidores

Redução de picos tarifários

BESSs reduzem preços nos horários de ponta e diminuem acionamento de usinas caras, aliviando tarifas.

Ao absorver excedentes, as baterias elevam o preço nos vales, reduzindo eventos de preços negativos e aumentando previsibilidade.

Estabilidade e Previsibilidade

A curva de preços mais plana permite contratos mais estáveis e reduz riscos para comercializadoras e distribuidoras.

O CAPEX das baterias pode elevar marginalmente o preço médio, mas o ganho sistêmico tende a compensar esse efeito.

Menos volatilidade reduz custos de hedge, reserva e operação, beneficiando consumidores.

Como o Caso da Dinamarca Ilustra Benefícios para o Sistema Elétrico Brasileiro

Redução de Picos e Térmicas – BESSs poderiam substituir parte do despacho térmico emergencial, reduzindo ESS e custos sistêmicos.

Suavização das Rampas Solares – Com rampas superiores a 10 GW, o Brasil teria grande benefício operacional ao suavizar a queda da geração solar ao pôr do sol.

Redução da Volatilidade do PLD – A compressão dos spreads reduziria riscos e custos no mercado livre brasileiro.

Integração de Renováveis – BESSs reduziriam vertimentos e congestionamentos no Nordeste, aumentando o aproveitamento da geração renovável.

Suporte ao NOS – Baterias forneceriam serviços ancilares essenciais, fortalecendo a estabilidade de frequência e reduzindo a dependência de hidrelétricas.

Benefícios ao Consumidor – Tarifas mais estáveis, menor ESS e maior segurança energética.

Autofagia Energética: Quando o Armazenamento Reduz a Própria Fonte de Lucro

Conceito: Autofagia energética ocorre quando o armazenamento reduz a própria volatilidade que sustenta sua rentabilidade, achatando a curva de preços.

Autofagia Não Destrutiva

É autofagia do lucro, não da utilidade sistêmica. O sistema melhora enquanto a arbitragem se torna menos lucrativa.

Implicações para o Brasil

A autofagia energética seria intensa devido às rampas solares, à dependência de térmicas e à volatilidade do PLD.

A compressão dos spreads marca a transição para um mercado baseado em flexibilidade, não em volatilidade.

Daniel Lima 

Empresário | Diretor Executivo da AGROSOLAR Investimentos Sustentáveis

Presidente | ANESOLAR (Associação Nordestina de Energia Solar)

Vice-Presidente | ARMAZENE (Associação Brasileira de Armazenamento de Energia)

https://www.gruposnw.com.br/post/os-bess-e-a-autofagia-energ%C3%A9tica

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