por Patrícia Cavalcanti*

Durante décadas, a busca por competitividade na indústria esteve pautada no controle rígido da cadeia de suprimentos e em investimentos pesados em ativos físicos. A eficiência energética costumava figurar como um debate operacional secundário. Contudo, as oscilações nos custos de energia, a expansão da automação e as exigências globais por descarbonização reconfiguraram esse cenário.
Ao superarem o papel de meros itens de suporte, a gestão de energia e a análise de dados assumem uma posição estratégica na preservação de capital. É essa transformação que aproxima os mundos físico e digital — conceito que, na Schneider Electric, definimos como Eletricidade 4.0. Trata-se da principal alavanca de inovação atual, pois, ao integrar inteligência artificial (IA) e sensores conectados às redes elétricas e fabris, viabiliza que a operação deixe de ser reativa e se torne preditiva.
O monitoramento contínuo de ativos críticos possibilita antecipar falhas e otimizar processos antes que ocorram paralisações na linha de produção. A grande vantagem é que esse salto de modernização não requer a substituição massiva de máquinas e equipamentos. Por meio do retrofit digital, é adicionada conectividade à infraestrutura já existente, gerando ganhos imediatos de produtividade com inteligência de investimento.
Se por um lado a gama de soluções tecnológicas é ampla, por outro a velocidade da sua implementação em escala enfrenta um gargalo essencialmente humano. As organizações que avançam além de projetos-piloto são as que promovem uma transição dupla, alinhando a inovação técnica à capacitação de pessoas. Esse é um dos principais desafios atuais, uma vez que a dificuldade central não está na carência de algoritmos, mas na escassez de mão de obra especializada nas chamadas habilidades verdes — talentos capazes de transitar com fluidez entre o universo digital e a agenda sustentável.
Segundo o estudo Green Skills Report 2025, do LinkedIn, a procura por profissionais com esse perfil cresce duas vezes mais rápido do que a oferta disponível. Levantamentos da Systemiq e do WRI indicam que 630 milhões de empregos no mundo passarão por requalificação ou mudança de escopo, enquanto cerca de 375 milhões de novas vagas poderão ser criadas na próxima década.
Essa urgência se conecta diretamente à realidade do Brasil, que reúne atributos raros como uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta, recursos abundantes e uma base fabril diversificada. Para converter essa abundância de energia renovável e o progresso tecnológico em valor econômico real, a aceleração do parque industrial depende de previsibilidade e segurança jurídica. Marcos regulatórios claros para o mercado livre, a modernização do grid elétrico, o armazenamento em baterias e a precificação de carbono são essenciais para atrair investimentos de longo prazo.
Ao combinar automação de ponta e rastreabilidade de emissões apoiada em dados auditáveis, a indústria nacional assegura acesso às cadeias globais de valor mais rigorosas. Embora a aplicação plena da IA na manufatura ainda esteja no início de seu potencial, os resultados já alcançados demonstram que o caminho é viável e rentável.
O fortalecimento do nosso setor produtivo passa pela capacidade de enxergar a Eletricidade 4.0 como a otimização direta dos custos operacionais e uma proteção para o futuro. A união entre tecnologia de energia, desenvolvimento humano e visão estratégica é o que permitirá ao país migrar da declaração de intenções para a entrega de resultados concretos.
*Patrícia Cavalcanti é vice-presidente de Digital Energy e Power Products da Schneider Electric para a América do Sul

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Gabriela Guastella gabriela.guastella@rpmacomunicacao.com.br
