Para os trabalhadores do setor, ambientes seguros e acolhedores reduzem o estresse das viagens, favorecem a recuperação durante os períodos de descanso e promovem dignidade

Por Agência CNT Transporte Atual

por Ana Carolina Godinho de Lacerda*

No setor de transporte, a discussão sobre acessibilidade é especialmente relevante, uma vez que a mobilidade constitui um aspecto essencial para a inclusão social e para a efetivação do direito de ir e vir, permitindo o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao lazer. Sob essa perspectiva, a acessibilidade pode ser definida, conforme destaca Thierry Marcondes (2026), especialista em Inovação, Acessibilidade e ESG, como a possibilidade de todas as pessoas participarem, de forma segura e autônoma, dos diversos espaços e atividades da vida pública e privada.

Em complemento, o Manual de Boas Práticas de Acessibilidade reforça que acessibilidade não diz respeito apenas à deficiência, mas à superação das barreiras que limitam a participação social em condições de igualdade. A promoção da acessibilidade também integra a dimensão social do ESG, ao contribuir para a redução de desigualdades e para a construção de ambientes e serviços mais inclusivos.

Para o Sistema Transporte, formado pelo SEST SENAT, CNT e ITL, acessibilidade significa garantir que todos os produtos, serviços e ambientes sejam acessíveis e utilizáveis por todas as pessoas, incluindo pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e transtornos do neurodesenvolvimento. Esse entendimento e essa responsabilidade também se refletem na promoção de uma cultura institucional pautada na inclusão, no respeito às diferenças e na valorização da diversidade.

A estruturação de uma sociedade mais inclusiva exige uma visão sistêmica da acessibilidade. Isso diz respeito à transposição de barreiras urbanísticas, arquitetônicas, nos transportes, nas comunicações e na informação, atitudinais e tecnológicas que possam limitar a participação das pessoas em diferentes contextos. Essa compreensão está presente na Política de Acessibilidade do Sistema Transporte, que estabelece diretrizes e medidas para garantir igualdade de oportunidades para todos. Trata-se de um compromisso alinhado à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que contribui diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Nesse sentido, a arquitetura desempenha um papel fundamental. Mais do que atender às normas, projetar ambientes inclusivos significa colocar as pessoas no centro das decisões e reconhecer que a diversidade humana deve ser considerada em todas as etapas de planejamento, gestão e execução dos projetos, garantindo que todos possam exercer seus direitos com independência e dignidade.

No Sistema Transporte, os princípios de acessibilidade são incorporados em todas as etapas dos projetos arquitetônicos, desde os estudos iniciais até a execução dos empreendimentos. Espaços planejados com foco na inclusão contribuem para experiências mais acolhedoras, seguras e intuitivas para todos os usuários. Os projetos desenvolvidos pela Gerência Executiva de Engenharia (GEENG) do SEST SENAT consideram os princípios do desenho universal, segundo os quais os ambientes são concebidos para serem usados de forma autônoma, segura e confortável por todas as pessoas, promovendo a acessibilidade como premissa de projeto e característica intrínseca da infraestrutura.

Elementos como rotas acessíveis, sanitários adaptados, organização espacial, legibilidade dos percursos, sinalização eficiente, vagas reservadas, entre outros aspectos influenciam diretamente a forma como os usuários percebem, compreendem e utilizam os ambientes. Mais do que atender necessidades específicas, a acessibilidade contribui para a criação de ambientes e serviços melhores para todos.

Em uma unidade do SEST SENAT, por exemplo, a adequação de rampas e a implementação de uma rota acessível bem planejada permitem que um trabalhador do transporte com limitação temporária decorrente de uma lesão, uma pessoa idosa, uma mãe com carrinho de bebê ou uma pessoa com deficiência cheguem aos serviços de saúde, educação ou lazer com autonomia e segurança. Ao mesmo tempo, uma sinalização clara e percursos intuitivos facilitam a orientação de qualquer usuário, tornando o atendimento mais eficiente e a experiência mais positiva para todos.

Esse compromisso se estende para além dos novos empreendimentos. Diversas Unidades Operacionais também possuem projetos de reforma em análise pelos Núcleos de Projetos e de Manutenção Predial da GEENG, alguns já em execução, que incorporam os elementos mencionados às soluções propostas, promovendo inclusão, bem-estar e qualidade na experiência de todos os trabalhadores do transporte, seus familiares e a comunidade em geral.

Rota da Acessibilidade

Nesse contexto, o Sistema Transporte mantém, de forma permanente, o programa Rota da Acessibilidade, uma iniciativa que reúne colaboradores de áreas estratégicas do SEST SENAT com o propósito de promover um ecossistema de transporte cada vez mais inclusivo. Por meio desse projeto, são realizados encontros e ações voltados à ampliação do diálogo, à disseminação de conhecimento e ao aprimoramento contínuo das práticas institucionais relacionadas à acessibilidade, à inclusão e à diversidade, como o 3º Encontro Nacional da Rota da Acessibilidade, realizado em 1º de outubro de 2026. 

Esses eventos reúnem especialistas, representantes institucionais e parceiros, constituindo importantes espaços para a troca de experiências, o compartilhamento de boas práticas e a construção de soluções capazes de transformar a realidade das pessoas. São iniciativas que evidenciam como a inovação e a tecnologia, quando aplicadas de forma acessível e centradas nas necessidades humanas, podem gerar impactos concretos e perceptíveis no cotidiano da sociedade.

Entre os debates promovidos durante o 3º Encontro Nacional da Rota da Acessibilidade, uma das rodas de conversa trouxe reflexões especialmente relevantes sobre os desafios ainda presentes na infraestrutura de apoio ao setor de transporte. Entre os participantes, estavam um caminhoneiro usuário de cadeira de rodas e outro com deficiência auditiva, que relataram as dificuldades encontradas em muitos pontos de parada e descanso ao longo das rodovias brasileiras. Ao mesmo tempo, destacaram que os locais que já incorporam soluções acessíveis representam verdadeiros marcos de inclusão em suas rotinas, proporcionando autonomia, segurança e dignidade. 

Esses depoimentos reforçam a necessidade de ampliar o olhar sobre a acessibilidade no transporte, fortalecendo iniciativas voltadas não apenas aos veículos e aos ambientes institucionais, mas também à infraestrutura rodoviária que atende caminhoneiros, passageiros e demais usuários.

Além das barreiras relatadas pelos participantes, muitas áreas de apoio nas rodovias ainda apresentam desafios relacionados à circulação, orientação e permanência dos usuários. Percursos com desníveis, ausência de rotas acessíveis entre os diferentes serviços, sinalização insuficiente, sanitários inadequados e áreas de descanso pouco confortáveis podem comprometer a experiência dos usuários. 

Para profissionais que passam dias ou até semanas em deslocamento, acessibilidade e conforto estão diretamente relacionados à saúde física e mental. Ambientes intuitivos, seguros e acolhedores reduzem o estresse das viagens, favorecem a recuperação durante os períodos de descanso e promovem maior sensação de pertencimento e dignidade. Sob essa perspectiva, a arquitetura deixa de ser apenas uma resposta às exigências normativas e passa a atuar como instrumento de inclusão, cuidado e valorização das pessoas que movimentam o transporte brasileiro.

Construir rodovias mais inclusivas, com áreas de descanso, serviços e equipamentos para todos, representa um passo importante para acolher a diversidade de pessoas que utilizam diariamente a malha de transporte do país. Esse compromisso também aponta para desafios futuros, como o fortalecimento de infraestruturas acessíveis ao longo das rodovias brasileiras, especialmente em pontos de parada e descanso, garantindo que caminhoneiros, passageiros e profissionais do setor possam exercer seu direito à mobilidade com autonomia, segurança e dignidade em todas as etapas de sua jornada.

O 3º Encontro Nacional da Rota da Acessibilidade representa, portanto, uma oportunidade de fortalecer esse diálogo e impulsionar iniciativas capazes de transformar boas práticas em resultados concretos. A cada edição, o evento amplia o repertório de referências, inspira novas soluções e fortalece o desenvolvimento de ações, processos e projetos mais inclusivos. Ao integrar inovação, acessibilidade, inclusão e diversidade, o Sistema Transporte reafirma sua responsabilidade com a promoção da mobilidade, da participação social e da construção de ambientes e serviços acessíveis para todos.

* Ana Carolina Godinho de Lacerda

Arquiteta do SEST SENAT. Mestre em Design, Inovação e Sustentabilidade pela UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais).

https://www.cnt.org.br/agencia-cnt/acessibilidade-inovao-e-incluso-construindo-um-transporte-para-todos

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