Por Elzio Mistrelo, Diretor da Associação Profissional de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (APECS)*
O avanço dos investimentos em infraestrutura no Brasil convive com um problema menos visível: a dificuldade de garantir que os projetos que antecedem as obras tenham a mesma qualidade e complexidade exigidas pelos empreendimentos que serão executados. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os investimentos em infraestrutura chegaram a cerca de R$ 280 bilhões em 2025, com 84% dos recursos vindos do setor privado, enquanto a necessidade estimada para atender às demandas do país é de R$ 497,7 bilhões, o que revela a necessidade de ampliar não apenas o volume de recursos, mas também a capacidade de estruturar projetos tecnicamente consistentes.
Embora a escassez de profissionais qualificados faça parte desse cenário, o desafio não se resume à falta de mão de obra. A pressão por redução de custos na contratação de serviços de engenharia consultiva pode gerar uma economia imediata que, posteriormente, se transforma em despesas muito maiores durante a implantação e a operação dos ativos.
Por mais que representem uma parcela relativamente pequena do investimento total de uma obra, os projetos de engenharia exercem influência sobre praticamente todas as etapas posteriores. Estudos insuficientes, levantamentos incompletos ou soluções mal dimensionadas podem resultar em mudanças durante a execução, necessidade de novos serviços, desperdício de materiais e atrasos no cronograma. Avaliar a consultoria apenas pelo preço inicial, portanto, significa ignorar o efeito que as decisões tomadas na fase de planejamento podem produzir sobre o custo total do empreendimento.
Essa relação se torna ainda mais evidente em obras de infraestrutura de grande porte, nas quais pequenas falhas de concepção podem adquirir proporções significativas quando chegam ao canteiro. Um projeto desenvolvido com maior rigor técnico permite antecipar interferências, avaliar diferentes cenários e reduzir incertezas antes que recursos sejam mobilizados. Quando essa etapa é tratada como uma despesa a ser comprimida, parte dos riscos simplesmente é transferida para a fase de construção, justamente quando corrigi-los tende a ser mais caro e complexo.
Ao mesmo tempo, essa discussão está diretamente relacionada à formação e à retenção de profissionais. A engenharia civil e outras áreas ligadas à infraestrutura enfrentam dificuldades para atrair novos talentos em um contexto marcado pela perda de atratividade das carreiras, pela pressão sobre honorários e por perspectivas profissionais menos competitivas. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) aponta uma redução de cerca de 30% nas matrículas gerais de engenharia e de 52% especificamente em Engenharia Civil, cenário que contribui para ampliar uma lacuna que já afeta a capacidade de planejamento e execução de projetos complexos.
Enquanto as empresas precisam encontrar profissionais capazes de lidar com projetos cada vez mais sofisticados, incorporando recursos como modelagem BIM, inteligência artificial e ferramentas avançadas de análise, também precisam competir em um ambiente no qual estruturas que investem em capacitação, tecnologia, segurança e compliance disputam contratos com concorrentes que operam com estruturas de custo mais enxutas. Quando o menor preço passa a ser o critério predominante, investimentos que aumentam a qualidade técnica podem deixar de ser valorizados no processo de contratação, criando um incentivo contrário à própria evolução do setor.
Os efeitos dessa dinâmica, por sua vez, não ficam restritos à etapa de construção e também podem se refletir nos custos de operação. A qualidade do projeto não determina apenas quanto uma obra custará para ser construída, mas pode influenciar sua eficiência ao longo de toda a vida útil. Soluções tecnicamente mais adequadas contribuem para reduzir falhas, facilitar a manutenção, melhorar o consumo energético e aumentar a previsibilidade da operação. Por isso, o custo de uma consultoria precisa ser analisado dentro do ciclo de vida do ativo, e não apenas como uma parcela isolada do orçamento inicial.
Mudar essa lógica exige que contratantes públicos e privados ampliem o peso atribuído à qualificação técnica nas contratações de engenharia, considerando aspectos como capacidade operacional comprovada, experiência em projetos de complexidade semelhante, estrutura profissional, adoção de tecnologias e mecanismos de integridade. Esses elementos ajudam a diferenciar uma proposta apenas mais barata de uma solução efetivamente mais eficiente e, em setores essenciais como saneamento, recursos hídricos e mobilidade, essa avaliação ganha ainda mais importância, já que falhas de projeto podem produzir impactos que ultrapassam o orçamento de uma obra.
No fim, a discussão sobre o custo da engenharia consultiva é também uma discussão sobre o custo da infraestrutura brasileira. Economizar na etapa de projeto pode parecer uma decisão racional quando analisada isoladamente, mas deixa de fazer sentido quando o resultado são aditivos, atrasos, paralisações, desperdícios e ativos menos eficientes. Valorizar a capacidade técnica não significa necessariamente aumentar custos, mas reconhecer que a qualidade da engenharia interfere diretamente no desempenho econômico e operacional dos empreendimentos. Em um país que precisa ampliar sua infraestrutura, tratar o projeto como mera despesa pode ser justamente uma das formas mais caras de economizar.
*Elzio Mistrelo é engenheiro civil, Diretor de Saneamento, Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Setec Hidrobrasileira, vice-presidente de Engenharia do SINAENCO-SP (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva) e Diretor da Associação Profissional de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (APECS)

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Gabriel Soares gabriel.soares@mention.net.br
