Há iniciativas que merecem ser avaliadas não apenas pelo que realizam durante alguns dias, mas principalmente pelas transformações que conseguem produzir ao longo de décadas. A 25ª Mostra Lutz, realizada nos dias 5 e 6 de novembro, na praça central de Garopaba, em Santa Catarina, é um desses exemplos. Mais do que uma exposição de trabalhos escolares, representa a continuidade de uma experiência de educação ambiental que atravessa gerações e ajuda a construir uma relação mais consciente entre as pessoas e o lugar onde vivem.

O evento reuniu estudantes, professores, escolas e comunidade em uma programação de apresentações de projetos escolares, atividades educativas e compartilhamento de experiências. Crianças e jovens tiveram a oportunidade de mostrar aquilo que aprenderam e desenvolveram durante o ano letivo. O que poderia permanecer restrito às salas de aula ganha as ruas, alcança as famílias e transforma o conhecimento em diálogo com a sociedade.

A dimensão dessa experiência impressiona. O Programa de Sensibilização e Educação Socioambiental Professor José Lutzenberger – Escola Amiga do Ambiente começou em julho de 2000, e sua mostra pública anual acontece desde 2001. Portanto, são 25 anos de uma política de educação ambiental construída em parceria entre a Fundação Gaia, o Projeto Gaia Village e a Secretaria Municipal de Educação. Até 2025, mais de 61 mil estudantes haviam participado diretamente de projetos desenvolvidos no programa. Atualmente, a iniciativa mobiliza toda a rede municipal de ensino, alcançando também escolas de municípios vizinhos. Cada edição reúne milhares de visitantes. São números que revelam algo raro: a capacidade de uma proposta educativa permanecer viva e relevante ao longo do tempo.

Mas por que isso importa tanto para Garopaba?

Porque a cidade possui uma vocação turística diretamente associada à exuberância de seu patrimônio natural. Suas praias, dunas, lagoas, cachoeiras, costões rochosos, restingas, Mata Atlântica e biodiversidade marinha formam um conjunto de paisagens que atrai visitantes de diferentes regiões. O mar, as ondas e a presença das baleias-francas em determinadas épocas do ano completam esse patrimônio. A natureza não é apenas parte da paisagem: é um dos principais ativos econômicos, culturais e identitários do município.

Os indicadores ajudam a compreender tanto os avanços quanto os desafios. No Censo de 2022, Garopaba apresentava coleta de resíduos em aproximadamente 99,7% dos domicílios, acima das médias de Santa Catarina e do Brasil. Por outro lado, somente cerca de 8% dos domicílios estavam ligados à rede geral de esgotamento sanitário, percentual inferior às referências estadual e nacional. Há também um dado positivo sobre o território: levantamentos do MapBiomas indicam que a cobertura de vegetação nativa passou de aproximadamente 32% em 1985 para 38% em 2024. Esses números mostram que existem conquistas, mas também responsabilidades que não podem ser ignoradas.

É justamente nesse contexto que programas como a Mostra Lutz adquirem importância estratégica. Não basta oferecer aos turistas praias bonitas e paisagens preservadas. É necessário desenvolver uma cultura de cuidado, envolvendo moradores, empreendedores, gestores públicos e visitantes. A sustentabilidade de um destino turístico depende da qualidade de suas águas, da conservação dos ecossistemas, do saneamento, da destinação dos resíduos e, sobretudo, da consciência coletiva sobre o valor desse patrimônio.

E essa consciência começa pelas crianças. Quando um estudante aprende a reconhecer uma espécie nativa, compreende a importância de uma nascente, participa de um projeto de compostagem ou discute o destino dos resíduos de sua comunidade, não está apenas assimilando conteúdos escolares. Está desenvolvendo vínculos com o território. Leva esse conhecimento para casa, conversa com os pais, provoca mudanças de comportamento e, muitas vezes, ensina aos próprios adultos uma nova maneira de olhar a natureza.

Esta edição teve ainda um significado especial: aconteceu no ano do centenário de nascimento de José Lutzenberger, nascido em 17 de dezembro de 1926. O ambientalista gaúcho, fundador da Fundação Gaia e uma das vozes mais importantes do pensamento ecológico brasileiro, defendia uma compreensão da natureza que ultrapassava a simples preservação de recursos. Para ele, a humanidade precisava reconhecer sua condição de parte de um sistema vivo, abandonando a ideia de que o desenvolvimento poderia acontecer à custa da destruição dos equilíbrios naturais.
Sua ligação com Garopaba também não é casual. A partir de 1997, Lutzenberger orientou as formulações que deram origem ao Projeto Gaia Village, experiência que procura demonstrar, na prática, possibilidades de convivência mais harmoniosa entre sociedade e natureza.

Revisitar sua história neste centenário, ao mesmo tempo em que celebramos os 25 anos da Mostra Lutz, é reconhecer que seu pensamento encontrou continuidade em uma experiência concreta de formação de novas gerações.
Talvez o maior resultado dessa iniciativa não esteja nos números acumulados, nos projetos expostos ou nos visitantes que passam pela praça. Está nas crianças que cresceram participando dessas atividades, nas famílias que incorporaram novos hábitos e nos professores que transformaram a educação ambiental em parte da formação de seus alunos.

Lutzenberger costumava nos provocar a pensar além do imediatismo. Vinte e cinco anos depois, Garopaba demonstra que plantar consciência também exige tempo, persistência e compromisso. Afinal, preservar a natureza não é apenas proteger aquilo que temos hoje. É garantir que as próximas gerações possam compreender, usufruir e continuar cuidando da extraordinária riqueza natural que receberam como herança.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. Contato: rena.zimm@gmail.com

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